Abrir uma igreja

Esse é outro “sonho dourado” de muita gente esperta, de olho naquilo que parece funcionar melhor neste universo rico e esquisito de oportunidades: nos últimos anos, vimos a proliferação de uma indústria capaz de sustentar não apenas seu próprio negócio, mas outros ainda mais caros – como canais de comunicação diversos. Estou me referindo a igrejas das mais variadas – a maioria delas evangélicas.

Então você passa ao lado de qualquer um destes estabelecimentos, percebe a presença de muitos fiéis movidos por sua fé e motivados a mudar de vida em busca de dias melhores e imagina: “quanto será que esses caras faturam em uma noite?”. A pergunta seguinte é inevitável: “e se eu mesmo criasse minha própria religião e entrasse nesse mercado?”.

E tem receita? Ironicamente, entre os textos publicados sobre o tema, encontrei o de Wellingtom de Paula, membro da Assembléia de Deus. Trata-se não apenas de uma crítica voltada a essa exploração desenfreada, mas também da certeza do quanto essa “receita” é visível. Primeiro elabore uma doutrina, escolha um nome triunfante, dirija-a a um público de baixa renda, alugue um salão grande (para demonstrar profissionalismo), compre púlpito, microfones, caixas de som, instrumentos musicais, contrate um músico e um “pregador” (dá para encontrá-los no Orkut!), seja atencioso com todos os crentes – sejam eles decepcionados, desviados, encrenqueiros ou apaixonados mesmo – e quando o esquema relacionado ao dízimo crescer, coloque-o para vender franquias, promover batismos, clamar pela prosperidade dos membros e organizar as contas. E não se preocupe com impostos: igrejas são isentas.

O segredo é o respeito. O tema é complexo, e eu seria absolutamente impertinente se condenasse qualquer manifestação. Mais do que isso: adotaria o mesmo discurso usado por inúmeros grupos pretensamente religioso para promover desentendimento, guerras, entre outras demonstrações desumanas. Independente da sua filosofia de vida, nossas escolhas são pautadas naquilo que faz bem não apenas a nós, mas ao coletivo. Liberdade de expressão, no entanto, é diferente de exploração religiosa, e os “vendilhões do templo” existem há milhões de anos – toda vez que uma sociedade passa por grandes dificuldades, as religiões se fortalecem. A resposta provavelmente está nas pessoas, e não é questão de inteligência ou cultura apenas: dividendos para todos os lados poderiam vir se houvesse mais respeito não apenas consigo, mas também com o próximo.

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